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Atualizado em 17/12/2015

RENAN ALBUQUERQUE #O comércio de artefatos arqueológicos na Serra da Valéria em Parintins (1)

RENAN ALBUQUERQUE     #O comércio de artefatos arqueológicos na Serra da Valéria em Parintins (1)

Regiões amazônicas de fronteira tendem a ser epicentros de contrastes, em razão, dentre demais questões, de disputas territoriais. Sejam fronteiras localizadas em territórios interestaduais ou intermunicipais do bioma, tratam-se de espaços de conflito. Nesses espaços de conflito, problemáticas referentes a patrimônio e saberes tradicionais são contingências incidentes. E para entender essas disputas, importa refletir sobre o conceito de território.

 

Sobre o tema, ponto convergente é a interpretação de que regiões de fronteira agregam interesses diversos. A identificação com a terra nesses territórios acontece quando o espaço onde se vive é assimilado como componente primordial. A apropriação e o domínio desses territórios não se configura apenas como possibilidade a comunidades que desenvolvem pertencimento afetivo e simbólico em relação a lugares. Trata-se de direito subjacente.

 

Partindo do suposto, toma-se a exemplo um território de fronteira entre os Estados do Amazonas e Pará, onde está situada a Serra da Valéria, na comunidade rural de Santa Rita de Valéria, reconhecida pelo Instituto Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como sítio arqueológico. Situada na margem direita do Rio Amazonas, a leste de Parintins, distante 52 km da sede municipal via terrestre e quatro horas via fluvial, é área onde estão assentadas comunidades tradicionais.

 

Na Valéria, saberes e fazeres locais estão alicerçados em vivências cotidianas, relações pessoais, sociais e com o ambiente. Populações tradicionais do território possuem íntima conexão com externalidades e absorvem ensinamentos transmitidos por oralidade, a partir de velhos. Porém, nos últimos anos, o trato pessoa-ambiente na Serra de Valéria tem se apresentado contraditório e com efeitos controversos. No local, observam-se problemas quanto a reconhecimento e legitimação de patrimônios datados, sendo que uma das questões polêmicas refere-se ao uso de artefatos históricos para venda.

 

A comercialização de vestígios patrimoniais inatos ao território na região tende a engendrar-se mediante desfiliações e despertencimentos, representando rupturas com a realidade vivenciada. E embora o sítio arqueológico seja referência sociocultural, no cotidiano moradores passaram a interagir com estranhamento ante a conhecimentos e artefatos locais, o que tende a caracterizar processos de rebaixamento afetivo, fragmentando o pertencimento do grupo à terra.

 

A região onde se localiza a Serra da Valéria/AM é formada por oito comunidades: São Paulo, Santa Rita de Cássia, Betel, Bete Semes, Recordação, Colônia Fé em Deus, Samaria e Lago do Barro. Algumas localizam-se em área de terra firme, como é o caso de Santa Rita e Bete Semes. São Paulo está localizada na base da serra, sendo afetada por enchentes. Na comunidade de Santa Rita de Cássia, habitações foram construídas em cima da serra, que foi povoada por indígenas no passado.

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Em Valéria, há presença significativa de vestígios arqueológicos, denominados de “cacos” ou “caretinhas”, o que sugere representação significativa da arqueologia na memória social local. Portanto, o local configura-se como espaço sociocultural de complexidade pelo intercâmbio de informações referentes ao turismo comercial entre comunidades, sobretudo com a comunidade de São Paulo, onde moradores organizam mostras artesanais para turistas, sejam nacionais ou internacionais. Com isso, dinâmicas de diferentes formações socioterritoriais influenciam na construção da memória social.

 

Somando-se ao relatado, importa frisar que incertezas sobre vestígios arqueológicos tem concorrido para que habitantes da região não se sintam pertencentes ao sítio, realizando assim vendas aleatórias de peças a turistas que visitam o local. São tradições reinventadas e moldadas por relações contingenciais explicam em parte a visão das comunidades ante o mercado de artefatos patrimoniais nessa região.

 

(1) O texto é parte de resultado de pesquisa publicado integralmente em julho deste ano, no  3º Encontro de ´Políticas Públicas para a Pan-Amazônia e o Caribe, em Manaus, na Ufam.

 

*Renan Albuquerque é professor doutor do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Ambientes Amazônicos e do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

*Artigo também é publicado no site Amazônia Real

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