Quarta, 10 de agosto de 2022

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Atualizado em 23/07/2022

LOURENÇO BRAGA - O pedinte

LOURENÇO BRAGA - O pedinte Lourenço Braga

Já escrevi aqui condenando  a discriminação, de qualquer natureza, quando tratei, por exemplo, do assassinato praticado em via pública pela polícia americana, com um “representante da lei” sufocando  um  seu compatriota, prendendo-o ao solo com o joelho em seu pescoço, mais de 100 quilos de peso, por tempo longo, mesmo que ele balbuciasse não  conseguir respirar, e assim foi até seu último suspiro. E tudo porque o haviam prendido em razão de usar cédula falsa de 20 dólares, pelo menos ao que disseram depois os algozes. Também falei do que fizeram “seguranças” de um supermercado brasileiro, espancando, chutando e sufocando João Alberto, que retiraram da loja sob desconfiança da prática de um furto e em quem bateram até vê-lo morto. Negros e pobres, ambos.

 

Dia desses, assisti a uma cena que me deixou fundamente impressionado com o que posso chamar, igualmente, de estupidez humana. Caminhavam à minha frente,  para entrarmos todos em uma padaria, duas jovens mulheres, que foram abordadas, à distância, por um homem que se acompanhava de uma criança, sua filha, talvez, e que lhes pediu uma ajuda. Como também fez a mim. Tanto bastou para que comentários das duas se fizessem rudes, grosseiros mesmo, sobre o pobre pedinte e a respeito do fato, hoje tão comum em nossa cidade, com crescimento considerável à vista das altas taxas de desemprego e da inflação descontrolada que desgoverna nossa economia. “Em Manaus não se pode mais andar na rua, que logo essa gente vem pedir alguma coisa”, disse a primeira das circunstantes, do que se aproveitou a outra para criticar “esses moradores de rua, sujos, que cheiram mal” e coisas outras dessa espécie, chegando mesmo a dizer, uma das duas, que tem vontade de chamar a polícia para prendê-los. E era tal a revolta das jovens madames, que ainda no interior do estabelecimento falavam sobre o pobre homem que, segundo assisti, apenas teve a “ousadia” de nos pedir que lhe minorássemos a fome. Não sei se continuaram a sobre ele falar, porque fiz questão de me afastar, para não chegar a perder a elegância do silêncio que me impus.

 

Por que há pessoas que moram na rua, dormindo sobre a calçada fria e suja, expostas ao sereno e ao frio das madrugadas, sem absolutamente nenhuma segurança, entregues à própria sorte, enfim? Será que alguém escolhe morar assim só para apreciar a paisagem, escolhendo o luar por confidente e sabendo que pela manhã haverá de mendigar o que comer, se não conseguir buscar no lixo de restaurantes, de feiras ou de bares? Ponho-me a pensar no quanto deve ser doído perder seu teto, não ter um lugar para onde voltar ao final do dia, mesmo que durante ele seja obrigado a andar sem rumo em busca de não morrer. Não ter um abraço, um sorriso, um acolhimento, não ter nem mesmo com quem discutir depois de uma estafante jornada diária. É possível pensar que alguém, lucidamente, renuncie à moradia, mesmo a mais humilde, para se “deleitar” com a vida ao relento? Haverá, por acaso, quem dispense o emprego, mesmo modesto, para “curtir” os “prazeres da rua”, além dos derrotados pelo uso incontrolável de drogas?

 

Aquele homem, que já voltei a encontrar outras vezes no mesmo lugar, não terá, por certo, pedido, em prece contrita, que se o transformasse em pobre pedinte, necessitado da caridade alheia, e, se morador de rua, como disseram suas indiferentes ouvintes, que se o deixasse sem casa e sem trabalho, porque a tanto orientado por seu livre arbítrio. Não, absolutamente não! Nem ele nem qualquer outro que,  vítimas de uma sociedade incapaz de bastar a todos, de garantir espaço que permita a dignidade, gera ela própria essa anomalia com a qual muitos de nós nem nos importamos.

 

 Aquela criança, que acompanha Alberto, sua filha, segundo ele me diz, ainda não tem acesso à escola, mas já conhece a miséria. Não tem carteira de vacinação, mas já se expõe a doenças as mais várias na rua, é tão inocente quanto o pai e se a ele acompanha é porque não há, na casa que habitam, ninguém mais além dos dois. Essa a realidade de muitos os que estendem as mãos e escondem a vergonha para pedir um pão. Que sonhos pode ter, que momentos de alegria além daqueles, raros talvez, em que é chamada para receber algo para comer, fruto de doação de quem nem mesmo  conhece? Aquelas senhoras certamente não sabem – e peço a Deus que não lhes permita saber – o que de fato está em cada pedido do pai ou da filha: a fome, que dói, que mata,  que hoje maltrata a Humanidade de forma cruel, com intensidade jamais vista.

 

É possível que aquelas senhoras, que talvez continuaram a falar mal do pobre pedinte, tenham encontrado, no retorno para casa, a alegria de filhos, crianças até, que as abraçaram ou lhes sorriram, e até mesmo o carinho de companheiros com quem dividem a vida. Talvez tenham levado o assunto, à sua maneira, para o ambiente familiar, contribuindo negativamente para a formação de crianças a seu redor. O que tenho como possível é, no entanto, que não lhes terá ocorrido arrependimento qualquer, que  afinal aqueles a quem negaram até um simples olhar não fazem parte de seu mundo, constituindo, para elas, é claro, uma espécie de gente de segunda categoria, párias do mundinho a que pertencem.

 

Não estou aqui a propor discussão sobre “dar esmola”, que tantos consideram forma de incentivar o ócio e o desprezo pela necessidade de buscar “crescer na vida”. Não é do que trato, mas da discriminação e do desrespeito a que assisti na conversa das duas senhoras. É como se não estivessem a referir-se a seres humanos, com direito a dignidade e respeito, no mínimo porque há Albertos que não escolhem a senda do crime, mesmo o famélico, preferindo expor-se à humilhação de pedir, ainda que para tanto tenham que guardar a autoestima e sepultar a vaidade.  O que aquele homem fazia, em ato que se deve repetir aos milhões diariamente mundo afora, era, tão somente, lutar pela sobrevivência usando o único meio honesto que lhe restou.  O que aquelas madames fizeram foi, e é, demonstração inequívoca da indiferença e da discriminação muito fortes em parte de nossa sociedade.

 

* Membro do Instituto Geográfico e Histórico Histórico do Amazonas

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