Quarta, 10 de agosto de 2022

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Atualizado em 09/07/2022

LOURENÇO BRAGA - O tempo

LOURENÇO BRAGA - O tempo Lourenço Braga

Na vida, há tempo para tudo, até para morrer.

 

Antes de virmos ao mundo material, quando é anunciada a gestação que proporcionará esse milagre da vida, já perguntam à mãe pelo tempo. É o que querem saber o médico, o pai, amigas e amigos ao tomarem conhecimento de tão importante evento: está grávida de quanto tempo? Desde ali, quando sequer estamos formados, o tempo já é nosso companheiro e, mesmo que ainda não saibamos, nos vai acompanhar por todo o tempo da vida.

 

Para conhecer o sexo de quem está carinhosa e calorosamente acomodado no ventre materno, há que esperar um tempo de formação, esta que não constitui um processo que se completa por inteiro desde logo. E esse tempo é aguardado, quase sempre, com ansiedade crescente pelos pais, pelos avós e por muitos, senão todos, da família. Por amigos também, às vezes. Transcorrido o tempo cientificamente apropriado, eis que afinal chega o tempo de satisfazer o desejo dos futuros pais por via de uma das muitas conquistas tecnológicas contemporâneas: a ultrassonografia.

 

Depois, há que conter o nervosismo para esperar o transcurso do tempo, contado em semanas, e por fim receber nos braços o rebento que, por uma das magias da vida, vem à luz. E às vezes, quando a parturiente entra em trabalho de parto e há longo tempo de demora para que o nascimento ocorra por via normal, o médico acaba tendo de escolher o processo cirúrgico para trazer ao mundo o novo integrante da família. E há os que, apressados, nascem fora de tempo, obrigando a um parto prematuro.

 

Depois, há tempo para amamentação, a maneira mais correta e saudável de alimentar a criança, desde o início, segundo os médicos, justo por se tratar de processo humano natural. Mas isso também é finito, não devendo durar por tempo indeterminado.


Aí vem o tempo em que começamos a fazer descobertas, ainda muito simples, é verdade, mas é o tempo em que iniciamos o desenvolvimento do sentido da atenção às coisas e às pessoas ao nosso redor, para também começar o processo de imitação e de repetição, tudo em tempo mais rápido ou mais demorado.

 

É como se dá com o tempo de começar a caminhar, quase sempre precedido do tempo de engatinhar, quando nos arrastamos pelo chão, exigindo maiores cuidados de quem vela por nossa integridade física e pela manutenção dos objetos da casa. Até que chega o tempo em que conseguimos nos colocar de pé – com alguns desequilíbrios, algumas quedas no início, é verdade – e, na maioria das vezes admirados pelos que nos cercam, começamos os primeiros passos.

 

É mais ou menos por esse tempo que nos habilitamos à fala, simplificando o processo de comunicação que em tempo anterior se dava por mera intuição ou observação. E se tivéssemos tempo para saber disso antes, por certo pronunciaríamos “mamãe” e “papai” a um só tempo, para deixar ambos igualmente envaidecidos, evitando mudas frustrações.


Em seguida, vem o tempo de ir à escola. Levados pelas mãos, sem nem mesmo compreender inteiramente do que se trata, enfrentamos o tempo primeiro de separação da família, para iniciar convivência nova. E sequer imaginamos que aquilo que então começa poderá acompanhar-nos por longo tempo, em escolas outras e novos grupos sociais de convivência, até que chegue, talvez, o tempo de cursar mestrado, doutorado e pós-doutorado. É certo que, infelizmente, não é assim que se dá com muitos, muitos mesmo, que, desde cedo, precisam dedicar tempo do dia para o trabalho, de sorte a ajudar na composição da parca renda familiar, quando há. O tempo da lida não permite sobra de tempo para o estudo. Bem por isso que, quando reitor da UEA, encontrei alunos que com mais de setenta anos de idade frequentavam pela vez primeira uma sala de aula, em busca de alfabetizarem-se. É que não dera tempo de fazê-lo no tempo apropriado. Mas, estar ali justificava a assertiva de que sempre é tempo de aprender. E foram mais de 125.000 brasileiros, em todo o Amazonas.


Mas, voltando ao tempo de escola, na passagem para a adolescência, é ali que começa o tempo dos primeiros sonhos, dos namoricos entre aprendizes, o tempo das primeiras paixões e também das desilusões amorosas, que muitas vezes se repetem ao longo da vida. É, certamente, um tempo de muita magia, do que até só muito tempo depois nos vamos dar conta. E aí a saudade se faz lembrança do tempo que se foi. Quem não lembra do tempo do primeiro beijo e do primeiro medo? É quando a ansiedade faz bem maior do que realmente é o tempo de espera pela concretização do primeiro encontro, com o nervosismo natural ante o desconhecido, roendo unhas ou gastando boa parte do tempo cuidando da aparência física ou até imaginando o que falar e como se comportar. Quanta beleza!
O tempo constitui questão fundamental para os atletas de esportes individuais olímpicos, em vista do desejado recorde da modalidade. Chegar em primeiro lugar em uma prova de natação, por exemplo, é sonho e desejo de quantos se jogam na água da piscina olímpica em hora de disputa, mas isso terá muito maior significado se o resultado se der em tempo inferior à melhor marca de antes, firmada em tempo pretérito.


É também de importância vital o tempo de exercício de cargo público conquistado em concurso de provas ou de provas e títulos. É que, nomeado, o concursado tem um tempo para tomar posse, pena de decretação de nulidade da nomeação, e outro tempo para iniciar o trabalho para o qual se habilitou, pena de ser exonerado. E é de quando entra em exercício que começa a contar o tempo para aquisição da tão desejada estabilidade, 3 anos, ou da vitaliciedade, 5 anos para magistrados de carreira, tempo que se denomina de estágio probatório, assim como começa a fluir desde o final do primeiro mês o tempo de contribuição para aposentadoria.

 

Ah, os psicólogos costumam aconselhar: mesmo nessa vida agitada, reserve um tempo para cuidar de você!

 

Mas o tempo não é, apenas, um conjunto de horas, minutos e segundos, de dias, semanas, meses e anos, cuja contagem é possível porque o homem criou instrumento apropriado, que Santos Dumont transferiu para o pulso como seu primeiro invento: o relógio. Não! Quantas vezes teremos ouvido, preparando-nos para sair de casa, “cuidado com o tempo”, recomendando o uso de agasalhos, de sombrinhas ou de outros apetrechos, porque o tempo, que estava ensolarado, de repente ficou fechado, prenúncio de chuva. Assim como também “fecha o tempo” quando duas ou mais pessoas resolvem desentender-se, chegando às vias de fato.


É bíblico o ensinamento de que há tempo para plantar e tempo para colher. O bom lavrador sabe quando precisa arar a terra, dela cuidando em tempo certo até chegar ao tempo do plantio. E é preciso estar atento ao tempo de florescer e ao tempo de colher, retirando os frutos de seu árduo trabalho manual ou mecanicamente. E até se diz que não é tempo de determinada fruta e de algum legume, quando está em tempo de sua escassez no mercado.

 

Há também os saudosistas, que se põem a recordar fatos da vida, os bons na maioria das vezes, e até chegam a dizer “no meu tempo não era assim”. E não era mesmo, porque em tempo algum dá-se a estagnação da sociedade, que, ainda bem, avança sempre em conquistas, mesmo que tenha havido tempo no qual, em Manaus, em pleno século 21, pessoas morreram sufocadas em vista da simples falta de oxigênio nos aparelhos que deveriam ajudá-las a respirar. Talvez porque tenha faltado tempo àqueles a quem competia disso cuidar. Um tempo de escuridão na história de nosso Estado.

 

Bem, mas também há tempo de parar e eu peço desculpas ao leitor por lhe haver ocupado tão longo tempo com esta leitura.

Sobe Catracas

DOM LEONARDO STEINER, arcebispo de Manaus

Foi escolhido pelo Papa Francisco para ser o primeiro cardeal da região amazônica do Brasil, em defesa da floresta e tribos indígenas

Desce Catracas

WILLIAM FONSECA, prefeito de Oriximiná (PA)

MPPA investiga suposta promoção pessoal do prefeito, que teria 'enfeitado' a cidade durante o Círio de Santo Antonio, com seu slogan de campanha