Domingo, 16 de janeiro de 2022

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Atualizado em 30/12/2021

LOURENÇO BRAGA - Termina o ano

LOURENÇO BRAGA - Termina o ano Lourenço Braga

Estamos vivos, graças a Deus!


Poucas vezes essa expressão terá tido tão importante significado quanto no final deste no de 2021. Uma pandemia que teima em subsistir, desafiando a Ciência e as crenças, e que volta a assustar vigorosamente o continente europeu e parte da América do Norte, já fez no Brasil mais de 619.000 vidas interrompidas neste plano terrestre, deixando a viuvez, a orfandade, a tristeza e o desconsolo pela perda de irmãos, de amigos, próximos ou distantes, de todas as idades, de diferentes religiões e classes sociais. Nós, os que podemos ler estas linhas, permanecemos aqui, mercê da bondade divina, contando a história e chorando pelos que partiram.

 

O ano – que se seguiu a outro em que as pessoas viveram aterrorizadas, desnorteadas, recolhidas às suas casas sem ir à escola ou a seus locais de trabalho, sem encontrar amigos ou familiares, quando não internadas lotando pronto socorros, clínicas e até hospitais de campanha improvisados – começou com uma tragédia que nenhum herdeiro de Alfred Hitchcock, nem ele próprio, nem o também famoso Zé do Caixão, seriam capazes de imaginar para construir uma história de terror destinada às telas dos cinemas ou para escrever em páginas de livros horrendos, que a muitos fascinam.

 

Em Manaus – cidade que ousa dizer-se capital da Amazônia legal, cuja economia é sustentada por um distrito industrial instalado a partir da concessão de incentivos fiscais de considerados níveis, maior produtora de riqueza da região norte – pessoas contadas às centenas morreram por não conseguirem respirar.

 

A elas lhes faltou o elemento mais primário da vida humana, o do primeiro contato do nascituro com o mundo exterior ao útero materno: o oxigênio. Mas não estou a cuidar de nenhuma incapacidade pulmonar gravíssima, nem de embolia ou qualquer outra anormalidade do organismo humano. Não, definitiva e assustadoramente, não. Faltou oxigênio nos aparelhos instalados exatamente para proporcionar o conforto e a segurança da respiração, justo porque faltou oxigênio nos hospitais. Isso mesmo. Difícil crer, mas em respiradores hospitalares desta cidade deixou de haver, por dias tortuosos e desesperadores, o ar que deveriam bombear para os seres humanos a eles presos por fios e tubos que terminaram por constituir-se, mesmo, em cenas de terror, com a diferença trágica de que foram reais.

 

Não é meu objetivo, aqui, falar de responsabilidades, de descasos, de falta de cuidados, de desatenção ou de qualquer outro desencontro que cabe às autoridades competentes apurar, respeitados todos os princípios e todas as garantias postas na Constituição da República. Não é disso que falo quando me enlouquece pensar no desespero dos que feneceram vendo o exaurimento de suas forças em busca de ar que lhes movimentasse o sistema respiratório. E me causa horror igual pensar em médicos, enfermeiros e todos os que assistiram a tão dantescos instantes, tão pavorosos finais de vida, sem nada poder fazer, apesar do conhecimento, da perícia comprovada que os mantinha ali, incansáveis e dedicados guardiões da vida humana que viam esvair-se seguidamente sem poder evitar.

 

Nem consigo imaginar o desespero dos familiares das vítimas dessa barbárie. E em meio a tal tortura, eis que se discutia oficialmente, com participação de palestrantes além-fronteiras, a recomendação do uso de medicamentos comprovadamente úteis para moléstias outras, tema que acabou por ganhar foros de politização. Mas de falta de ar não se falava, a não ser para transferir responsabilidades.

 

A solidariedade humana, de artistas e de brasileiros de outras categorias, acabou por fazer chegar a Manaus balas de oxigênio que, por obra da Divindade, certamente, diminuíram o terror e a mortandade, enquanto se ouviam manifestações contrárias à importação de tal produto de país vizinho só por causa de incoincidência de convicções políticas entre governos. No meio disso, pessoas morriam porque não respiravam.

 

Felizmente, isso foi superado e o resto do ano transcorreu com esforço considerável, de parte de governos de diferentes níveis, para promover a vacinação das pessoas, o que se constitui em enorme desafio de logística, à vista das distâncias e das características deste país continental. E neste final do ano a discussão é sobre imunizar crianças menores de 11 anos, mesmo que se lhes tenha permitido retornar às aulas presenciais e, obviamente, proporcionado a convivência na escola, contribuindo para eventual contágio, e que uma das fabricantes já tenha anunciado a preparação do imunizante em doses apropriadas para essa faixa etária.

 

Tomara que se conclua a consulta pública em andamento e que, com exigência de receita médica, de autorização dos pais ou de qualquer outro requisito, ponha-se à disposição da população a vacina, como deveria ter estado, sempre, nos hospitais, o oxigênio.

 

Hoje, mais de 66% da população está em dia com duas doses do imunizante e muitos já são os que chegaram à terceira dose, reforçando a geração de anticorpos de segurança para reação ao vírus resistente. E é graças a isso que, paulatinamente, a vida vai quase restabelecendo sua normalidade, com alunos e professores em salas de aula, torcedores em estádios de futebol, fãs em espetáculos artísticos e a imprensa cumprindo, desde o começo, aliás, o papel de orientar e estimular os que ainda resistem a completar o ciclo vacinal.

 

O Japão, entusiasmado com os resultados de seu sistema de imunização e adotando todos os cuidados recomendados por cientistas, que são os que disso entendem realmente, cumpriu, com absoluto sucesso, o compromisso de realizar as Olimpíadas, que deveriam ter ocorrido no ano anterior, e é fato que a maior festa do esporte, nascida na Grécia, há de ter contribuído como força nova para que a Humanidade voltasse a pensar na vida, na saúde em lugar da doença, com os atletas realizando sonhos, batendo recordes, lutando por lugares no pódio para compensar as muitas horas de dedicação extrema de preparação física e técnica em sua modalidade esportiva.

 

A beleza da festa foi coroada pelo desempenho brasileiro, o melhor da história, com ouros trazidos no peito de Fadinhas e de Italos, de Isaquias e de Rebecas, de Matheus e de Maicon que garantiram a glória repetida no futebol. Foi assim também nas paraolimpíadas, com  Wendel, Danielzinho e tantos que aqui chegaram com 72 medalhas, 22 douradas. Um brinde à vida!

 

Festas religiosas voltaram a acontecer, embora em modelo híbrido, como se deu com o Círio de Nazaré e com a homenagem à padroeira do Brasil, ou à do Amazonas, tal como a Marcha para Jesus, com o povo orando nas capelas, nas igrejas, nas ruas, festejando e agradecendo a bondade divina. E os templos religiosos foram aos poucos reabrindo suas portas para receber os fiéis. Um brinde à fé e à esperança.

 

Já são muitos os motivos a festejar, como a importância crescente, no mundo da produção e da distribuição do Conhecimento, da nossa Universidade do Estado do Amazonas, sob a regência de Cleinaldo Costa e cuja batuta tive o privilégio de empalmar nos primeiros sete anos.

 

Estamos vivos, graças a Deus, e é por isso que ouso trazer um brinde ao tempo novo, em forma de quase poesia, assim:


ANO QUE VEM

Quando termina um ano,
como se caísse o pano
em forma de despedida
no grande teatro da vida,
outro logo começa
não há nada que impeça
já que o tempo não para
e um minuto separa
o que foi do que virá,
assim sempre será.
Hora de esquecer,
de novamente sonhar,
prometer, até jurar,
de construir, refazer
é tempo novo pra crer.
Nova pra luta a coragem
de receber na passagem
com invulgar alegria
o raiar do novo dia
e como se fosse magia,
o ano ainda criança
renova a esperança
de crescer, reconquistar,
de vencer, recomeçar.
Pra quem não tem como lenda,
fazer de novo oferenda,
entrega de sonhos no mar
cânticos, velas reluzentes,
oração, singelos presentes
pra saudar Iemanjá.
Brinde com todos os seus,
em casa ou noutro lugar,
o ano que vai começar,
que seja muito bem-vindo
melhor que o ano findo,
com paz e bençãos de Deus

*O autor é advogado, membro do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e ex-reitor da UEA*
[email protected] 

Sobe Catracas

CLEINADO MARINHO, diretor de produção

Dirigiu filme de animação com personagens indígenas em cenário pandêmico, que passa em São Gabriel da Cachoeira, e será lançado no Youtube

Desce Catracas

AGUINALDO MARTINS, ex-prefeito de Manaquiri (AM)

Após dez anos, foi processado pelo MPAM acusado de integrar esquema de emissão de notas frias para fraude no fornecimento de combustíveis, em seu mandato de 2012