Domingo, 16 de janeiro de 2022

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Atualizado em 14/12/2021

CARLOS SANTIAGO - Dar, receber e retribuir

CARLOS SANTIAGO - Dar, receber e retribuir

Dezembro chegou. É o mês das confraternizações de amigo (a)s, das trocas de presentes, dos presépios religiosos, das celebrações natalinas e das reuniões de família.  É o momento em que o dar, o receber e o retribuir são mais intensos.

 

Segundo sociólogo francês, Marcel Mauss, o dar, o receber e o retribuir constam em todas as sociedades humanas, independentemente de as mesmas serem denominadas de “modernas” ou “tradicionais”, criando relações sociais permanentes e contribuindo com a organização social dos povos.

 

Então, não adianta ganhar comendas valiosas, bombons finos, taça de açaí, vídeos fantásticos, camisas bonitas, perfumes raros, votos de eleitores, além de sorrisos, abraços e belas palavras, se não houver gratidão e retribuição.

 

Os presentes e os gestos como o sorriso carregam, também, sentimentos de gratidão, formam laços sociais e nos movem a retribuir. Se não for para criar laços sociais, as trocas de presentes e as palavras não têm sentido. É assim que muitas sociedades humanas há séculos estabelecem a vida social: com tolerância e paz.

 

No entanto, muitas vezes, os presentes e palavras também são usados como meios de opressão ou cometimentos de indelicadezas contra o outro, em especial, quando o presente, as palavras e os sorrisos ganham um tom de superioridade, sem a retribuição ética devida, redundando em conflitos de relacionamentos e desesperanças. 

 

Na política, a falta de retribuição devida acontece quando o eleitor deposita seu voto de confiança numa urna. E recebe de volta um comportamento não ético da classe política, como ocorre no Brasil. Assim, também, quando o contribuinte paga o imposto aos governos e não recebe os serviços públicos adequados.

 

No Brasil, o dar, o receber e o retribuir ainda são atitudes escassas. Há muita pobreza material, há enorme concentração de poder e de renda, há condutas racistas, há crises de representação política, há muita violência contra mulheres, há sofrimento de povos indígenas, há um salve-se quem puder explicito: a Covid-19 está matando, a maioria do povo não quer usar máscara e os governantes estão brigando somente pelo Poder. 

 

A vida é a mais bela poesia e uma mistura perfeita da natureza com a bondade divina, mas a luta pelo poder e a intolerância impedem sua plena realização. A conduta da vida humana é feita de três partes: o dar, o receber e o retribuir. Elas são partes de um todo que representa o bom da vida e a lembrança de que somos todos humanos.

 

Como diz o poeta Carlos Drummond de Andrade: “a porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. E os dois meios perfis não coincidiam. Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta. Chegaram a um lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. Era dividida em duas metades, diferente uma da outra. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. As duas eram totalmente belas. Mas carecia optar. Cada um optou, conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia.”

 

Penso que entre o dar, o receber e o retribuir não cabe opção. Trata-se de um único mandamento. Um trinômio que faz a vida leve e essencialmente bela.

 

*O autor é sociólogo, analista político e advogado*

Sobe Catracas

CLEINADO MARINHO, diretor de produção

Dirigiu filme de animação com personagens indígenas em cenário pandêmico, que passa em São Gabriel da Cachoeira, e será lançado no Youtube

Desce Catracas

AGUINALDO MARTINS, ex-prefeito de Manaquiri (AM)

Após dez anos, foi processado pelo MPAM acusado de integrar esquema de emissão de notas frias para fraude no fornecimento de combustíveis, em seu mandato de 2012