Domingo, 16 de janeiro de 2022

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Atualizado em 10/12/2021

LOURENÇO BRAGA - Doutor Honoris Causa

LOURENÇO BRAGA - Doutor Honoris Causa LOURENÇO BRAGA

Na quarta-feira última, dia consagrado à santa padroeira, recebi da Universidade do Estado do Amazonas, sob emoção indescritível, o título de Doutor Honoris Causa, a maior honraria acadêmica, em noite na qual foram igualmente homenageados os professores doutores Rui Manoel Proença de Campos Garcia, catedrático da Universidade do Porto, e Wanderley de Souza, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

Conferiu-nos o grau o Magnífico Reitor da UEA, eminente professor doutor Cleinaldo de Almeida Costa, e tive como guardiã de honra, a me conduzir e a me vestir os paramentos, a doutora Maria Justina Braga Monteiro, irmã, professora e Assistente Social dos necessitados, exdiretora da Escola de Serviço Público. Não sei contar em palavras os sentimentos que de mim se apoderaram na noite de gala.

 

O discurso que pronunciei, já graduado, iniciei-o conferindo à “primeira palavra força de oração, grito interior de comunicação com Deus, em respeito profundo à dor de tantos brasileiros cujas lágrimas pranteiam vítimas de doença cruel e avassaladora, que assustou o planeta e o continua escravizando.” E pedi ao Pai, em seguida, que nos conceda sermos melhores ao final desse pesadelo.

 

Por coincidências que a própria vida costuma reservar, o galhardão que tanto me honra foi-me entregue em noite igual à de minha formatura na graduação e sobre isso disse, então: “Pareço ver, nesta hora de júbilo intenso e de emoção incontida, Lourenço, o pai, em noite amazônica de 8 de dezembro de 1970, subir comigo ao palco do Teatro Amazonas, incomparável santuário da arte, para, além de me passar às mãos o diploma de Bacharel em Direito por uma das três Faculdades mais antigas do Brasil, que eu depois viria a dirigir, receber, com alegria inescondível, sentimento de dever cumprido, o anel simbólico conquistado por méritos durante o curso, a ele entregue pelo Magnífico Reitor da Universidade do Amazonas, hoje UFAM, e dele ouvir, enquanto trazia a meu dedo trêmulo a joia do prêmio, entre lágrimas que se juntavam para nos unir, com a benção que jamais faltou: eis o símbolo do que lhe compete honrar. Na plateia, entre soluços contidos, Sebastiana, a mestra de todos nós até os 98 anos de idade, que com ele construiu, por mais de meio século, o amor verdadeiro, certamente eterno, fazia aplausos harmônicos com o pulsar de seu coração, convicta do quanto se entregara, em desvelo, dedicação e crença, para a glória daquele instante. A seu lado, João, o mais velho de nós e que vivera conquista igual havia 10 anos, José, que depois se fez doutor em Direito, ideólogo desta Universidade, Maria Justina, a Assistente Social dos necessitados, a quem pedi para me introduzir hoje neste recinto de encanto, Ana Maria, que logo se faria médica das crianças pobres a quem se dedicou até o fim imposto por um câncer que a vitimou no meio da caminhada, e Robério, o mais novo dos irmãos, que se tornaria depois o primeiro mestre em Direito Ambiental do País, na Universidade que ajudou a construir, filhos que dividiam com ela a magia abençoada pela Santa padroeira.”

 

Obrigando-me a tentar conter as lágrimas que teimavam em molhar-me o rosto e o coração, continuei lembrando: “neste 8 de dezembro, 51 anos depois, por nova obra da Divindade, sou convocado pelo Magnífico Reitor da Universidade do Estado do Amazonas, que tive a honra de ser o primeiro a dirigir, para, sob emoção igual, receber a outorga do título de Doutor honoris causa, e peço a Deus, em prece contrita de coração pulsante de saudade, que permita a Lourenço, Sebastiana, João e Ana Maria reunirem-se em plano superior, entre cânticos e sons de trombetas de anjos, para dividir com os que aqui estamos a glória nova. Que haja festa em seus espíritos, que beijo respeitoso, porque é deles igualmente, por força do amor, a beleza inexcedível desta hora memorável, que a Senhora da Conceição também há de estar a abençoar.”

 

Depois de entregar o valor da homenagem aos que em família sonharam comigo, inclusive a filhos e netos, certeza da perpetuação, a quem me dei em exemplos “e dos quais hei recebido mostras sucessivas de dignidade, caráter e amor ao próximo”, dirigi-me, ainda no prólogo, ao magnífico Reitor, assim: “a generosidade dos dignos membros do Egrégio Conselho Universitário a deferir-me o galhardão deste título, proposto por Vossa Magnificência, dá-me oportunidade, como amazonense e em hora solene, de proclamar-me devedor da competência, da seriedade, do compromisso e da dedicação com que há conduzido a nossa UEA, elevando-a a pontos estelares entre suas congêneres na América e no planeta, como aliás fizeram os que me sucederam antes que o alvo capelo chegasse às mãos igualmente honradas do regente de hoje. Respeito igual devoto, portanto, aos magníficos professores doutores Marilene Correia da Silva Freitas, José Aldemir de Oliveira e Carlos Eduardo de Souza Gonçalves.”

 

Entendi que contar um pouco da história de nossa UEA era apropriado para a ocasião e comecei por fazê-lo lembrando que em “dezembro do último ano do século, vésperas de milênio novo, o governador Amazonino Armando Mendes, entusiasmado com o que constatara na formação de médicos cubanos e preocupado com a necessidade imperiosa de contribuir para a construção de processos de educação de qualidade, decidiu, em manhã amazônica de sol ardente, que parecia derramar bençãos sobre os que com ele nos encontrávamos, criar a Universidade do Estado, principalmente para preencher a histórica ausência de nossa instituição federal no Interior, menos por desejo dos que a dirigiram, mais por absoluta falta de recursos financeiros destinados pelo governo federal que até hoje a mantém. Filho de Eirunepé, no distante Juruá, conhecia por própria experiência a necessidade do caboclo de abandonar seu torrão e sua família sempre que quisesse ousar voos que o conduzissem além da formação média de ensino. E foi por isso que, ao sancionar a lei que autorizou a criação, em 12 de janeiro de 2001, o chefe do Executivo declarou instituir a universidade dos povos da floresta”.

 

Registrei que, no dia seguinte ao da assinatura do decreto de criação, o chefe do Executivo nomeou-me reitor, “regente de uma orquestra que precisava ser composta”, conferindo-me inteira liberdade para procurar os instrumentos e os músicos e a mim me outorgando "competência para nomeá-los, à exceção do vice-reitor.

 

Os pró-reitores, os diretores de escola, os coordenadores de curso e de qualidade foram sendo procurados e reconhecidos por sua experiência acadêmica ou de gestão e se foram incorporando paulatinamente, principalmente depois de realizarmos o maior vestibular da história deste país, com mais de 160.000 inscritos, na capital e no interior, recorde que a própria Universidade venceria no ano seguinte, quando 230.000 brasileiros inscreveram-se em busca das vagas ofertadas. Era como se a Universidade, há tanto desejada, a todos encantasse, tal como fez com um humilde carvoeiro de Rio Preto da Eva que se graduou em Enfermagem, por exemplo, ou com um pintor de parede que ajudou a construir o prédio da escola onde foi estudar licenciatura plena em letras, em Parintins. Pura magia!”.

 

A homenagem foi recebida com a modéstia de quem tem consciência de haver procurado cumprir o dever do que lhe foi confiado e, por sua beleza, dela voltarei a falar na próxima sexta-feira, com transcrições novas do discurso proferido.

 

*O autor é advogado, ex-reitor da UEA, sócio do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA) e ex-secretário de Educação do Estado*

Sobe Catracas

CLEINADO MARINHO, diretor de produção

Dirigiu filme de animação com personagens indígenas em cenário pandêmico, que passa em São Gabriel da Cachoeira, e será lançado no Youtube

Desce Catracas

AGUINALDO MARTINS, ex-prefeito de Manaquiri (AM)

Após dez anos, foi processado pelo MPAM acusado de integrar esquema de emissão de notas frias para fraude no fornecimento de combustíveis, em seu mandato de 2012