Quarta, 27 de outubro de 2021

DeAmazônia

MENU
Atualizado em 11/09/2021

LOURENÇO BRAGA - Carta a meu pai

LOURENÇO BRAGA - Carta a meu pai Lourenço Braga (Foto: Reprodução)

Há 35 anos, em noite paulista de 10 de setembro, realizaste a viagem definitiva, após cirurgia bem sucedida para recomposição do fêmur fortemente atingido com fratura por uma queda da cadeira de balanço em que costumavas ficar boa parte de teu tempo aos 97 anos de idade. Tua Sabá, companheira de mais de 50 anos, estava ao teu lado, como todos os filhos à exceção de mim que, no dia seguinte, tive de cumprir, com dor indecifrável, o indefinível dever de assinar um manifesto no terminal de cargas do aeroporto recebendo a urna funerária em que te encontravas, inerte, absoluta e definitivamente ausente deste campo da vida material.

 

Depois, o velório, durante noite em que eu não queria que o tempo passasse, pretendia que as horas se multiplicassem em progressão geométrica para poder ficar um pouco mais, e mais, e mais, contemplando e de quando em vez acariciando, entre orações, teu corpo frio vestido em terno impecável, como gostavas, e guardado por uma mortalha que parecia denunciar, permanentemente, a realidade e que se molhava constantemente pelas lágrimas de todos nós – tua Sebastiana, teus filhos, netos e bisnetos – e de amigos que nos foram confortar.

 

Não era a primeira vez que partias, já que teu trabalho se dava em navios da iniciativa privada, em viagens que chegavam a durar mais de dois meses, levando mercadorias e trazendo produtos, principalmente borracha e castanha, entregues, na ida, e recebidos, no retorno, nos beiradões do Purus ou do Juruá, onde a embarcação também se abastecia da lenha que a caldeira queimava para movimentar os motores. Mas as partidas eram, sempre, prenúncios de chegadas, muitas das quais acompanhei sentado na “pedra do porto”, chorando quando ias e tomado de felicidade incomparável a cada retorno teu para casa.

 

Ah, quantas vezes voltei do porto com o coração apertado e tomado de lágrimas, como os olhos, a partir de quando ouvia a ordem de desatracar. E ficava ali, por tempo que não sei medir, até que o navio desaparecesse na curva seguinte ao encontro das águas. Outras tantas, tive o peito a pulsar de alegria, esperando por horas que aquele mastro do vapor “Industrial” ou do “Ayapuá”, ou mesmo da lancha “Minas Gerais” se mostrasse ao longe, confirmando a chegada.

 

Não sei quanto tempo passava até a atracação, mas tenho viva a memória de que era o primeiro a pular para dentro do barco tão logo encostava no cais, às vezes até recebendo um “ralho” do Comandante Bandeira por não haver esperado que as manobras se completassem. Mas abraçar-te, receber tua benção, valia o risco.

 

No 10 de setembro paulista não houve âncora para fundear o barco e a viagem se fez definitiva.
Tanto tempo depois, pareço ver-te fazendo a alegria das crianças que abençoavas e que acorriam ao navio para receber do “seu Braga” bolachas, bombons, biscoitos que levavas para bordo, comprados com o teu parco dinheiro, com essa finalidade específica e ainda tenho na retina o sorriso de muitos quando lhes passavas a mão sobre as cabecinhas e dizias “que Deus te dê um futuro de luz”.

 

Quantas vezes, paizinho, vi e ouvi isso nas duas viagens de férias que fiz contigo no vapor Industrial, pelo Purus, até Boca do Acre, como prêmio por minha aprovação no Instituto de Educação do Amazonas, e que fizeste questão de pagar a teus patrões como pagaram todos os passageiros iguais a mim. E entre lágrimas que não contenho, pareço ver o brilho de teus olhos ao dizeres sobre mim a teus colegas, depois que terminei o curso Pedagógico: “Já é professor”.

 

Era, eu hoje compreendo, um grito de teu coração bondoso proclamando a vitória de tudo quanto havias feito, com luta tradicional do trabalhador brasileiro, injustamente assalariado, ao lado de uma professora que teimou em ensinar até os últimos dias de seus 98 anos de idade, quando, acredito, partiu para te encontrar. Não dizias com orgulho reprovável, em tom de superioridade, mas como sentimento de dever cumprido, tu que não havias tido a oportunidade de a tanto chegar porque precisaste desde cedo dedicar-te ao trabalho.

 

Tenho viva em mim a imagem de tua alegria ao ser chamado ao palco do Teatro Amazonas para me entregar o diploma de bacharel em Direito e o “anel simbólico” que te havia prometido para imitar João, o mais velho e que abriu os caminhos para todos nós. Há fotografias, pai, que só os corações enxergam. E foi assim, depois, com José, Desembargador federal, Maria Justina, nossa Assistente Social, Ana Maria, médica das crianças pobres, e Robério, desde muito cedo líder e intelectual. Essa a tua obra, de verdade.

 

Foram muitos os caminhos que trilhaste na vida terrena. Poeta, jornalista, político com e sem mandato, fundador do primeiro partido trabalhista do Brasil, líder sindical, e em tudo te destacaste, e muito fizeste por tua categoria profissional, sempre respeitado, mas exerceste papel irreprovável, impossível de ser avaliado em suas consequências: foste pai no verdadeiro sentido da palavra. Educaste com exemplos e os conselhos que transmitiste nunca foram em forma de repreensão, sempre de incentivo e de respeito.

 

Morávamos na Avenida Ayrão, em Manaus, em casa pela qual pagavas quinhentos mil réis de aluguel, e em um dia de domingo eu, criança ainda, talvez com 7 ou 8 anos de idade, voltei da rua exultante de alegria por haver encontrado uma cédula de valor exatamente correspondente ao que devias pagar, mensalmente, ao locador.

 

E, feliz, mostrei a ti o dinheiro e me disseste, em voz doce e calma que pareço ouvir até hoje: meu filho, se você achou é porque alguém perdeu; volte e deixe no mesmo lugar em que estava. E foste assim, vida afora, mostrando valores que guardo comigo e que procuro transmitir a meus filhos, imaginando que os receberão teus bisnetos.

 

Hoje, meu comandante, as lágrimas permanecem mas eu as consolo com as orações diárias por teu crescimento espiritual. No 22 de junho deste ano, aniversário de teu casamento com Sebastiana, a professora do Janauacá que te ajudou a criar os três filhos de Isabel, de quem enviuvaste – Altacir, Altamir e Altair – e que te deu, além de mim, João, José, Maria Justina, Ana Maria e Robério, eu disse a Jesus, em prece fervorosa, com a humildade dos que suplicam e a força dos que efetivamente creem: “há 86 anos, Lourenço e Sebastiana juraram, diante de teu altar, amor eterno; dá-lhes, Pai, a eternidade e a infinitude do Amor.”

 

Deus te abençoe!

*O autor é professor, ex-reitor da UEA e ex-secretário Estadual de Educação do Amazonas*

Sobe Catracas

MÁRIO FLÁVIO NOVO JR, designer e empreendedor

Software de gestão para automatizar tarefas nas áreas de gestão fiscal e financeira, criado pelo parintinense, ganha destaque nacional e faz sucesso em bares e restaurantes

Desce Catracas

WILLIAM FONSECA, prefeito de Oriximiná (PA)

Teve o mandato cassado pela Câmara de Vereadores, acusado de contratar 1,5 mil servidores temporários, sem processo seletivo