Quarta, 27 de outubro de 2021

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Atualizado em 10/09/2021

Duhigó é a primeira mulher indígena do AM no acervo do Museu de Arte de São Paulo

A obra adquirida pelo MASP retrata o ritual de nascimento de um bebê do povo da etnia Tukano

Duhigó é a primeira mulher indígena do AM no acervo do Museu de Arte de São Paulo A artista e a obra (Foto: Divulgação/Galeria Manaus Amazônia)

DEAMAZÔNIA MANAUS, AM - Com 16 anos de carreira artística e uma vasta produção de obras de arte inspiradas na cultura indígena, em especial, nas suas próprias memórias enraizadas no povo Tukano, sua etnia de origem, Duhigó conquistou um lugar de destaque na história da arte amazonense e brasileira ao se tornar a primeira mulher indígena amazonense a compor o renomado acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), considerado o maior do país.

 

O MASP possui atualmente 11 mil peças artísticas e é considerado o mais importante museu do Hemisfério Sul.

 

A obra de arte que garantiu a entrada de Duhigó no MASP é intitulada Nepũ Arquepũ, que significa, na língua Tukano, Rede Macaco. O quadro foi produzido em Manaus em 2019, no tamanho de 185,5 x 275,5 cm, em tinta acrílica sobre madeira e narra uma cena da memória afetiva da artista: um ritual de nascimento de um bebê do povo Tukano.

 

A cena pintada na obra narra, de dentro de uma maloca Tukano, o momento do parto até o descanso da mãe na Rede Macaco, que recebe os cuidados dos parentes próximos e do pajé da tribo. A obra já é conhecida dos brasileiros, pois participou da Exposição itinerante “VaiVém”, nos Centros Culturais Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte entre os anos de 2019 e 2020, com curadoria de Raphael Fonseca.

 

Fruto da doação dos colecionadores de arte Mônica e Fábio Ulhoa Coelho, a obra de Duhigó está em exibição na sede do MASP, em São Paulo, dentro da mostra “Acervo em Transformação: doações recentes”, e ficará em cartaz até fevereiro de 2022.

 

Com curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico no MASP, e Amanda Carneiro, curadora assistente na instituição, a exposição reúne 13 obras de artistas incorporadas à coleção do museu entre 2020 e 2021 e expressa o trabalho contínuo que tem sido feito com o objetivo de fortalecer a presença de mulheres no acervo.

 

Para Amanda Carneiro, curadora da mostra, o MASP tem como missão ser um museu diverso, inclusivo e plural e para tornar esse objetivo uma realidade é necessário incorporar ao acervo a multiplicidade da produção artística contemporânea, sobretudo brasileira.

 

“O trabalho de Duhigó na mostra ‘Acervo em transformação: doações recentes’ expressa o trabalho contínuo que tem sido realizado para fortalecer a presença indígena no museu, este é o contexto dessa doação. A extraordinária pintura Nepü Arquepü (Rede Macaco) representa um importante momento de cerimônia e celebração do nascimento de uma criança e dos laços de comunidade que se fortalecem nesse evento ímpar. Junto a outros artistas indígenas, o trabalho permite que o público visitante do museu se aproxime da variedade, amplitude e da complexidade de saberes materiais e imateriais, filosofias e visualidades dessa produção tão rica”, destacou Amanda.

 

Em 2019, o ciclo da programação do MASP abordava as Histórias das mulheres, histórias feministas. No biênio de 2020-21, voltado às Histórias brasileiras, o ano de 2021 é mais uma vez dedicado a elas, sendo este o contexto da exposição que Duhigó participa. Em 2023, o MASP terá sua programação dedicada às Histórias indígenas. 

 

Palavra da artista

Duhigó recebeu a notícia com muita alegria e sentimento de dever cumprido nesta importante etapa de sua carreira.

 

“Agradeço a todos que estão comigo nesta vitória. O Instituto Dirson Costa onde estudei pintura, a Manaus Amazônia Galeria de Arte que me representa, todas as pessoas que me apoiam desde o começo. Tive muitas dificuldades e não foi fácil. Eu tenho que agradecer muito a Mônica e Fábio que compraram minha obra e doaram para esse museu MASP, que é muito importante para outras pessoas do Brasil e do mundo conhecerem meu trabalho. Eu nem podia imaginar que isso poderia acontecer da forma que está acontecendo, uma obra de arte inspirada por mim chegar em um lugar tão importante. Eu agradeço a direção do museu. Sei que nem todos gostam das obras indígenas, mas sei que tem muita gente que gosta e está passando a gostar a partir do meu trabalho”, declarou Duhigó. 

 

A artista apresenta em suas obras aspectos da memória e do cotidiano de etnias indígenas da Amazônia, como uma forma de preservar sua ancestralidade e garantir que as futuras gerações possam conhecer a cultura amazônica e indígena por meio da arte.

 

Sobre a artista

Duhigó (que significa “primogênita” na língua Tukano) e tem admiradores e colecionadores de sua arte no Brasil e no exterior. Nasceu na aldeia Paricachoeira, município de São Gabriel da Cachoeira, região do Alto Rio Negro, no Amazonas. É filha de pai Tukano e mãe Dessana. Mora em Manaus desde 1995 e concluiu o curso de Pintura na Escola de Arte do Instituto Dirson Costa de Arte e Cultura da Amazônia, em 2005, tornando-se a primeira indígena da etnia Tukano a se profissionalizar nas artes visuais.

 

É representada pela Manaus Amazônia Galeria de Arte, empresa que agencia a carreira da artista no mercado nacional e internacional. 

 

Em 2019, Duhigó participou da exposição “Nipetirã – Todos”, na Galeria do Largo, espaço administrado pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas.

 

A mostra, promovida em parceria com a Manaus Amazônia Galeria de Arte, reuniu mais de 120 obras assinadas por indígenas das etnias Wanano, Tukano, Apurinã e Kamadeni. Pinturas, quadros de marchetaria e esferas de acrílica sobre ouriço de castanha do Pará feitas por Duhigó (Tukano), Dhiani Pa’saro (Wanano), Sãnipã ( Apurinã/Kamadeni) e Yúpuri (Tukano).

 

Amazonenses no MASP

Duhigó é a sétima artista amazonense a compor o panteão de artistas visuais no acervo do MASP. Antes dela vieram a primeira mulher amazonense no acervo, Branca Coutinho de Oliveira, de Parintins, e um time masculino composto por Manoel Santiago, Moacir Andrade e Sebastião Barbosa, nascidos em Manaus; Hélio Melo, de Boca do Acre e Denilson Baniwa, de Barcelos.    

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