Quinta, 30 de junho de 2022

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Atualizado em 09/05/2016

GERSON SEVERO DANTAS #Festival de Parintins| As Duas Faces de Um Problema

GERSON SEVERO DANTAS #Festival de Parintins| As Duas Faces de Um Problema

Ao longo de quase 70 anos o povo de Parintins, empurrado por personagens como Lindolfo Monteverde, os irmãos Cid, a família Farias, Raimundinho Dutra, os Portilho, os Paulains, Chico da Silva, Jair Mendes e tantos outros cuja memória devemos sempre reverenciar, transformou uma pequena brincadeira do ciclo junino num dos maiores espetáculos da Terra, com Caprichoso e Garantido assumindo o papel de grande símbolo da cultura de nosso Estado.

 

No entanto, ao renunciar ao direito de continuar tocando o espetáculo nas suas esferas administrativa e financeira, houve um certo esgarçamento de perspectivas. Os novos administradores da festa, o Governo do Estado e Secretaria de Estado da Cultura, buscaram tornar o espetáculo ainda maior, inseri-lo na chamada indústria cultural, que se por um lado dá visibilidade ao produto, por outro lhe tira a legitimidade de obra autoral. Ao fazer do Festival Folclórico de Parintins um produto de exportação, de televisão e de atração turística, o governo trouxe para si uma enorme responsabilidade, que ao final e ao cabo significa dinheiro. Por outro lado, o povo, sem independência administrativa e financeira, foi dando asas a imaginação e a cada ano ficou esperando por um bumbá maior e mais caro, não necessariamente original. Eis ai o esgarçamento de perspectiva: Um quer um festival menor, porque não tem dinheiro para investir na festa, o outro quer um festival cada vez mais brilhante (não confundir com o bumbá de Manaus) e caro.

 

No exercício do jornalismo, lembro do tempo em que o Movimento Marujada enviava a Parintins o produto da venda de 100 grades de cervejas no Bar do Boi e isso fazia toda a diferença na preparação do Caprichoso, que não por acaso venceu mais festivais na década de 90 que o Garantido, que não tinha aqui um movimento semelhante. A renda de 100 grades de cerveja hoje não paga os vestidos das sinhazinhas da fazenda. E o governo, logicamente, em tempo de crise, não quer arcar com o custo a mais de tornar a apresentação das filhas do amo do boi mais bonita. É compreensível? É. Não tem solução? Claro que tem, afinal muito mais difícil era tirar versos no tempo em que não havia microfones.

 

O problema é que, senhor de baraço e cutelo, o governo quer impor certas ideias que são há tempos repudiadas nos cantos, esquinas e bares de Parintins, sendo a mais exótica delas a redução do festival para apenas duas noites. Não cabe na cabeça de nenhum parintinense e nem na dos torcedores de outros locais que, em plena segunda década do século XXI, não se encontre um jeito de manter a tradição dos três dias, mesmo que sem o brilho dos anos de fartura das verbas, que já bateram na casa dos R$ 7 milhões para cada bumbá em tempos recentes.

 

Para piorar, acena também com a tranferência para os bumbás de custos operacionais com iluminação, sonorização e outros itens, além de reduzir a metade o repasse oficial, que cairia de R$ 2 milhões para R$ 1 milhão.

 

O risco, da forma como vejo a questão, é que o governo, toda vez que quis mesmo uma coisa, deu um jeito de fazer acontecer. Foi assim na questão da data de realização do festival, que deixou o tradicional 28, 29 e 30; foi assim na posição dos jurados, hoje espalhados pelas arquibancadas; no caso da iluminação cênica, na escolha dos jurados por uma consultoria independente e em várias outras questões menores

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Neste sentido, se houver mudanças, é o preço que os parintinenses vão pagar por delegar poderes ao Estado.

*O autor é jornalista

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